Por que Singapura se tornou o segundo maior destino global de FDI? — A lógica da promoção de investimentos mudou
Em 2025, o investimento estrangeiro direto (FDI) global recuperou-se moderadamente para US$ 1,6 trilhão, após dois anos consecutivos de queda, mas essa recuperação foi altamente concentrada: os 20 maiores destinos absorveram mais de 80% do incremento. Na Ásia, uma remodelação de capital que dura vários anos finalmente atingiu um marco simbólico — Singapura saltou para a posição de segundo maior destino global de FDI, com um fluxo anual de US$ 150,9 bilhões, atrás apenas dos Estados Unidos, ultrapassando pela primeira vez Hong Kong e China.
Essa mudança não é acidental. Ela lembra às agências de promoção de investimentos em todo o mundo: a competição por FDI entrou em uma nova fase, na qual o modelo tradicional de atração de investimentos, centrado em baixos custos e grandes mercados, está dando lugar a uma consideração abrangente da qualidade institucional, da resiliência das cadeias de suprimentos e da função de hub. Este artigo, com base no Relatório de Investimento Mundial da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) e em dados oficiais de Singapura, analisa a lógica do capital por trás da ascensão de Singapura e extrai um quadro metodológico de referência para profissionais de promoção de investimentos internacionais.
1. A mudança global do FDI: o modelo tradicional de atração de investimentos está perdendo eficácia
Nas últimas décadas, as políticas de investimento estrangeiro das economias em desenvolvimento geralmente giravam em torno de três pontos: abrir mercados, reduzir custos e oferecer incentivos fiscais. No entanto, nos últimos anos, o sistema de coordenadas das decisões de investimento das empresas multinacionais está mudando. Tomando Singapura como exemplo, seu fluxo de FDI em 2025 ultrapassou US$ 150 bilhões, enquanto a China registrou US$ 104,7 bilhões no mesmo período e Hong Kong, US$ 116,5 bilhões. Vale notar que o estoque de investimento estrangeiro na China e em Hong Kong ainda é enorme, mas a direção do capital incremental já se deslocou claramente.
Os dados da UNCTAD mostram que o fluxo de FDI para Singapura aumentou de US$ 71,1 bilhões em 2020 para US$ 150,9 bilhões em 2025, mais que dobrando; a China, por sua vez, caiu do pico de US$ 189,1 bilhões em 2022 para US$ 104,7 bilhões, uma redução de quase 45%. Por trás dessa comparação, está a reavaliação da "certeza" pelos investidores. Segurança da cadeia de suprimentos, estabilidade institucional, ambiente de Estado de Direito e eficiência na alocação transfronteiriça de capital estão substituindo os meros custos dos fatores como variáveis-chave que determinam a direção do FDI.
Para as agências de promoção de investimentos, isso significa que o antigo "discurso de atração de investimentos" e a "caixa de ferramentas de políticas preferenciais" não funcionam mais automaticamente. Enfatizar apenas o tamanho do mercado ou o preço da mão de obra torna-se cada vez menos capaz de convencer as empresas multinacionais que estão reestruturando suas cadeias de suprimentos em todo o mundo.
2. A ascensão de Singapura: dos números à lógica
O salto no ranking de Singapura não é resultado de um único fator. Segundo as estatísticas oficiais, as atividades financeiras e de seguros representam até 65,5% do estoque de FDI, enquanto comércio atacadista e varejista e manufatura respondem por 13,4% e 8,0%, respectivamente. Isso revela uma característica importante: Singapura não atrai investimentos tradicionais voltados à produção, mas sim "investimentos funcionais" centrados em sedes regionais, gestão de ativos e comércio global.
Isso também explica por que a competição entre Singapura e Hong Kong é tão direta — ambas disputam o mesmo nicho de "sede asiática". No entanto, Singapura ampliou a diferença nos últimos seis anos, e suas práticas merecem ser decompostas.Primeiro, o modelo “Singapura+1”. Devido aos recursos limitados de território e energia, Singapura não tentou manter todas as funções industriais no seu território, mas preservou localmente as funções de alto valor agregado — como sedes, P&D e finanças — e alocou o armazenamento de dados e parte das atividades de produção para o estado de Johor, na Malásia, separado por um estreito. A Zona Econômica Especial Johor-Singapura institucionalizou ainda mais essa divisão de trabalho transfronteiriça. Trata-se de uma lógica de integração de recursos regionais, e não de competição entre cidades individuais.
Em segundo lugar, a estratégia de hub bidirecional. Em 2025, o investimento direto no exterior de Singapura atingiu US$ 94,2 bilhões, um aumento de 70% em relação ao ano anterior, saltando do nono para o sexto lugar global, praticamente empatado com Hong Kong. Isso significa que Singapura não é apenas um destino de entrada de capital, mas também um centro de reconfiguração regional de capital. Para as multinacionais, entrar em Singapura significa obter um canal de capital conforme, eficiente e que leva ao Sudeste Asiático e ao mundo.
Além disso, a estrutura das fontes de IDE de Singapura também reflete seu apelo institucional. América do Norte e Europa juntas representam mais da metade do estoque, enquanto a América Latina e o Caribe — representados pelas Ilhas Cayman e pelas Ilhas Virgens Britânicas — respondem por 22,9%, refletindo a prevalência de estruturas internacionais de participação societária. Em outras palavras, Singapura atua como um conector entre o financiamento offshore e a economia real.
3. Estrutura reutilizável: cinco fatores-chave para a promoção de investimentos como hub
A partir da experiência de Singapura, é possível tentar extrair uma estrutura analítica de “promoção de investimentos como hub”. Essa estrutura não defende a cópia de Singapura, mas oferece um caminho de reflexão para diagnosticar as próprias condições.
Primeiro, redefinir “localização”. Singapura se posiciona como a “porta de entrada para a Ásia”, e não como uma pequena cidade de 6,7 milhões de habitantes. A promoção de investimentos deve primeiro responder: qual é a função de conexão mais escassa desta região na cadeia de valor global? É um nó de manufatura, um nó de inovação ou um nó de mercado de capitais?
Segundo, a oferta institucional é superior aos incentivos políticos. A transparência do Estado de Direito, a proteção da propriedade e os mecanismos de resolução de disputas de Singapura são a base da confiança de longo prazo do capital internacional. Políticas preferenciais podem atrair projetos no curto prazo, mas a qualidade institucional determina se o capital permanece e é reinvestido.
Terceiro, foco setorial em vez de cobertura total. Singapura usa finanças e seguros como lastro do IDE, enquanto visa setores estratégicos como semicondutores, data centers e energias renováveis. Atração de investimentos sem foco setorial tende a cair em competição homogênea.
Quarto, construir ativamente um ecossistema transfronteiriço. O “Singapura+1” mostra que as fronteiras da promoção de investimentos podem ir além das divisas administrativas. Por meio de zonas econômicas bilaterais, acordos de colaboração em cadeias de suprimentos e promoção conjunta de investimentos, as cidades podem passar da competição de soma zero para a ocupação coordenada de posições.
Quinto, estender de “atrair” para “sair”. A capacidade de investimento bidirecional é a característica central de uma economia hub. As IPAs (agências de promoção de investimentos) não apenas atendem investidores estrangeiros, mas também podem apoiar empresas locais a investir no exterior, estabelecendo assim conexões de capital mais profundas.
4. Direções futuras: para onde vai a promoção de investimentos
O caso de Singapura também aponta para várias mudanças setoriais em curso.Primeiro, a digitalização da promoção de investimentos. No passado, dependia-se de relacionamentos pessoais e eventos de divulgação; agora, é necessário utilizar sistemas de inteligência de IED, big data setorial e mapas de redes empresariais para identificar investidores de alto potencial.
Segundo, a complexificação da tomada de decisão dos investidores. As pressões geopolíticas estão levando as multinacionais a incluir a “redundância de riscos” nos critérios de localização; portanto, transparência, capacidade de resposta a emergências e profundidade da cadeia de suprimentos tornam-se os pontos centrais da comunicação.
Terceiro, a ascensão dos corredores econômicos regionais. Zonas de cooperação transnacional semelhantes à Zona Econômica Especial Johor-Singapura podem se tornar mais frequentes, e as agências de promoção de investimentos precisam ter capacidade de comunicação transjurisdicional e de construção conjunta de marca.
Além disso, a aplicação de ferramentas de inteligência artificial na correspondência com investidores, na simulação de cenários e na personalização da comunicação irá acelerar, mas o que é verdadeiramente escasso continua sendo o “capital de relacionamento” baseado na confiança institucional.